Livro do Espelho (Lima, 03)

Naquele dia eu já acordei me sentindo péssimo. E hoje resolvi fazer o que a tempos deveria ter feito.

Na primeira vez eu não tive coragem. Na segunda vez minha mãe encontrou a navalha no meu bolso. Agora não tem ninguém para me impedir.

Entrei no meu quarto e fechei a porta, a jenela como sempre, esta aberta. Sentado no chão, eu só consegui pensar em todos os problemas que eu tinha. E nenhum parecia ter solução.

Primeiro lembrei da minha mãe indo embora com meu irmão, me deixando para trás com minha avó.

Depois lembrei quando ela voltou para a cada casa da minha avó e me levou a força para morar com ela e seu atual marido. Comecei a chorar quando em minha mente veio a cena da minha tia Joelma entrando o ônibus e tentando me tirar a força. Implorando para minha mãe não me levar, mesmo depois de ter me abandonado.

Toquei a lâmina em meu pulso quando vi o marido da minha mãe tirando a minha roupa e tocando meu corpo. Passando a mão dentro da minha cueca.

Passei a lâmina superficialmente na minha pela arranhou como a raladura de uma queda na calçada de cimento. A ferida ardeu e eu lembrei das cicatrizes em meu corpo, da queda de cavalo que meu padrasto provocou depois que eu disse que não iria ficar calado. Por anos sofri com as ameaças.

Depois que parou de doer, Eu pensei em desistir. Mas lembrei que eu era diferente e que eu poderia não ser amado dentro da minha família catolica e evangélica. Todos os dias eu ouvia o preconceito dentro de casa e as vezes na igreja. Não era diretamente comigo, mais me afetava igualmente.

Respirei, deixei mais algumas lágrimas milhar meu rosto e enquanto eu me despedia mentalmente da minha tia e da minha avó. Lembrei que minha prima se foi.

Janna, a única que parecia me entender em meio a toda a minha confusão de pré adolescente. Eu prometi não chorar quando ela partiu, mas no meio da noite eu sempre chorava a sua ausência. Então eu pensei, se eu for agora. Talvez eu a encontre, nessa ou em outra vida.

O pulso eu cortei.

Doeu, o suficiente pra fazer eu me arrepender. Não cortei o suficiente, não era fundo o bastante pra fazer eu sangrar até morrer.

Eu vi o sangue saindo, vermelho pintando o chão. Senti meu corpo fraco, minha vista imbacou senti uma tontura e é mais nada eu vi.

Eu sobrevivi.

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